Podia ser uma história como outra qualquer...

Mas não. Esta história tem um toque especial. Um pormenor que escapa facilmente, que por tão facilmente escapar se torna fácil de mascarar.

Conheça a Ana e a Maria

A Ana e a Maria são pessoas como outras quaisquer. Viviam a sua vida, a sua rotina, como todos nós vivemos a nossa. Toca o despertador, toma o pequeno-almoço, 7h de trabalho, almoça do tupperware, volta a casa, faz o jantar, vê uma série, vai dormir.

Reset.

Repete tudo novamente.

Mas as boas histórias não se contam dessa forma. As boas histórias não acontecem porque alguém resolveu vestir uma t-shirt vermelha em vez da habitual t-shirt verde, ou porque alguém decidiu que tomar o pequeno-almoço fora para variar fosse uma boa ideia.

As melhores histórias contam tudo sem contar nada. Levantam o véu, mas não desvendam pormenores.

A Ana e a Maria, como muitos outros casais LGBT, conheceram-se online, num fórum de séries. A Ana era uma ávida seguidora da série Mentes Criminosas (Criminal Minds), a Maria achava piada, mas preferia algo mais ao estilo de The Walking Dead.  

Uma coisa leva à outra e entretanto começaram um chat privado. Acordaram uma data para se encontrarem e, naquele sábado, lá estavam.

Não passou muito mais de duas semanas até que o primeiro beijo acontecesse e para que a Maria pedisse a Ana em namoro.

2 anos depois...

Chovia por todos os lados. Era, em teoria, o dia perfeito para não se fazer absolutamente nada e simplesmente se deixar estar no sofá ou na cama a ver Netflix enquanto o Mundo se inundava lá fora.

Mas este jantar com a Ana estava combinado há pelo menos duas semanas e não havia hipótese de se adiar.

Já não se viam há duas semanas. A Ana (comercial numa empresa de mobiliário) tinha estado fora em trabalho nos últimos dias numa feira e não tinham tempo juntas desde que os preparativos para a viagem começaram. Estava na hora de matar saudades e saber mais novidades.

Falavam praticamente todos os dias, nem que fosse através de duas ou três mensagens no messenger. Mas não é o mesmo que conseguir tocar-lhe ou olhar para ela.

Por isso, desse por onde desse, não lhe podia fazer a desfeita.

Também estava com curiosidade em relação ao restaurante. Não conhecia nem nunca a Ana tinha falado daquele lugar. As reviews online eram excelentes, por isso a expectativa também estava bem lá em cima!

Entrou no carro, pôs a morada no GPS, e em pouco mais de 20 minutos chegou à morada do restaurante.

Expectativas

A decoração do local fazia antever uma refeição espectacular e, no mínimo, cara. As duas tinham uma regra: quem convida, paga, apenas com exceção de datas especiais em que dividem a conta. Não sabia ao certo como seria este caso, mas o cheiro que vinha da cozinha já a deixava com água na boca.

O jantar estava decididamente fabuloso! Optaram por um menu de degustação, que lhes permitiu provar as 5 especialidades da casa e ainda acrescentar mais 2 pratos à escolha. As duas sentiam que iram rebolar pelas cadeiras até ao carro, nem se sentiam capazes de se levantar.

A Ana mandou vir um bule de chá caseiro que teria sido recomendado pelo staff para amenizar a sensação de enfartamento. Foi-lhes recomendado que bebessem devagar para que funcionasse melhor. E então foram ficando.

O restaurante, com capacidade para cerca de 40 pessoas, foi esvaziando à medida que o tempo passava. As duas já não se viam há algum tempo e parecia que havia tema de conversa até ao amanhecer.

Perto das 23h00, a sala estava já completamente vazia. Olhando à volta, a Ana disse à Maria que ia só à casa de banho antes de irem embora. “Efeitos do chá”, dizia ela.

A Maria estava agora sozinha na sala semi-escura e não se ouvia nem um barulho. O staff provavelmente já tinha arrumado todas as outras mesas e, se conhecia bem a Ana, esta fuga à casa de banho seria também um pretexto para pagar a conta. Por isso esperou, fazendo scroll pelas redes sociais.

Uptown girl

Do escuro, ouve-se uma música a tocar baixinho. A Maria não consegue descortinar qual é, mas sente que a reconhece de algum lado.

UPTOWN GIRL!

Um flash de luz quase cega a Maria ao som da música Uptown Girl dos Westlife. Mas esta é uma versão diferente.

Quando consegue recuperar, vê-se rodeada por 10 telas com fotos das duas. A primeira foto juntas, as primeiras férias em Cádiz, até o aniversário do primeiro ano de casamento, em que a meteorologia quase lhes estragou os planos de um picnic na serra.

Enquanto observava as fotografias, a música continuava numa versão própria…

“She’ll see I’m not so tough 
Just because 
I’m in love with an uptown girl 
You know I’ve seen her in her uptown world”

Uma versão de uma das músicas preferidas da Marta, cantada na voz da Ana, numa versão slow pace. Lindo de se ver!

Neste momento, ouve-se no background a parte final da música.

“Uptown girl 
She’s my uptown girl 
You know I’m in love 
With an uptown girl”

Lembras-te, Maria? Das vezes que ouvimos esta música quando te disse que não lhe achava piada? Foi nesse dia que me apercebi que estava completamente apaixonada por ti. E desde esse dia que és a minha Uptown Girl.

Não vale a pena tentar explicar ou definir o que sinto por ti. Acho que, entre as duas, nunca conseguimos, mas a música ajuda. Por isso, desculpa, mas alterei ligeiramente a última parte.

Uptown girl 
I want you everyday in our uptown world 
I bet you know that I think you are wow 
So here’s something I want to ask you now

pedido de casamento ana & maria

Will you marry me?

É fácil adivinhar o resto. Mas se quer saber mais pormenores, pode ser aqui como foram os preparativos.


1 comentário

Pedido de casamento da Ana e da Maria - Portugal LGBT · 13/08/2019 às 14:06

[…] Sabia há já pelo menos 2 meses que queria pedir a Maria em casamento. Mas faltou-me sempre forma de o fazer, pensar como, onde e quando. Queremos sempre que seja perfeito, ao mesmo tempo que quanto mais tentamos aperfeiçoar, mais coisas queremos mudar (risos). Hoje, já de anel no dedo, não mudava absolutamente nada. Foi fenomenal! Ana namorada da maria Já leu o resumo do pedido de casamento da Ana e da Maria? […]

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